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Eduardo Amaro
Cursou jornalismo em Marília e Letras/Latim na Unesp de Assis, por onde é mestre em Camões. É professor efetivo no Estado de São Paulo, escritor e webdesigner.
21/05/2011
A mulher de Garrett e de Camões

A mulher de Garrett e de Camões

Análise individualAnjo és (Almeida Garrett)

 

            Essa poesia garrettiana é extremamente paradoxal; possui caráter descritivo, no entanto, as contradições na tentativa de definir e no sentimento do "eu lírico" pela Musa inspiradora carregam a poesia de forma a expressar intensamente o ego romântico.

            A repetição da idéia central é constante na pergunta: “Anjo és?”, que aparece seis vezes numa poesia de duas estrofes (contando com o título, que em si próprio já é um paradoxo).

            O "eu lírico" deseja a Musa, como se observa em “não respondes - e em teus braços, com frenéticos abraços”, ou ainda em “dou-me a ti, anjo maldito”, mas não consegue definir o que sente: “isto que me cai no peito, que foi?”

            É uma estreita relação dialética que existe entre o “eu poético” e o objeto de sua canção.

            Quanto à métrica, o poema não possui uma forma definida. Tal indefinição, no entanto, não interfere no ritmo da poesia; o título é uma pergunta cuja resposta não é definida! Pois se temos a afirmação inicial “Anjo és tu, não és mulher” para no último verso termos “Anjo és tu, ou és mulher?”, significa que a voz poética está indefinida quanto ao objeto de seu desejo e a forma desejada: platônica ou real? Anjo ou mulher?

 

Análise IndividualSonetos de Luís Vaz de Camões

 

            Ambos os sonetos têm caráter conceptual que, através de uma argumentação cerrada, definem o pensamento a respeito da Musa e do Amor.

            Eles são engajados no racionalismo; a emoção é contida no equilíbrio e o sentimento na harmonia.

            Os valores clássicos do conceito do Bem e do Belo são nítidos no poema. Para Aristóteles, a matéria é existência virtual, que só se realiza mediante as formas. Por isso, o verso: “Como matéria simples busca a forma”.

            No Soneto 1 há uma explícita tentativa de unir tal conceito aristotélico de forma (nos tercetos) com o conceito platônico de amor (nos quartetos).

            Quanto à métrica, ambos são decassílabos heróicos, cujos versos possuem, em sua maioria, as tônicas na 6ª e 10ª sílabas poéticas. A rima é ABBA.

 

O CONFRONTODiferenças e semelhanças nas poesias

 

            Temos na “mulher” garrettiana um ser sem definição, desejado e idealizado parcialmente. Tal mulher é, como o próprio "eu lírico" canta: um “anjo maldito”. Por outro lado, a “mulher” camoniana é aquela que enfeitiça (Circe[1][1]), uma semidéia.

            A forma da poesia romântica de Garrett é livre, enquanto que Camões escreveu as poesias na forma de sonetos decassílabos heróicos.

            Muitas passagens de “Anjo és” fazem referência ao pensamento do clássico português, a saber:

            “Anjo és tu, que esse poder

Jamais o teve, mulher,

Jamais o há de ter em mim

(Garrett)

 

“Não tenho, logo, mais que desejar,

Pois em mim tenho a parte desejada

 

            O “eu” de Garrett deseja, mas não ama. Ele quer, mas o que deseja não é uma semideusa, é um anjo maldito. Por outro lado, de tanto idealizar a amada, o “eu” de Camões passa a ser a amada, transforma-se nela, não restando mais o que desejar justamente por trazer em si próprio a idéia do ser que deseja.

 

            “Em que mistério se esconde,

            Teu fatal, estranho ser?

            Anjo és ou és mulher?

            (Garrett)

ÉS

 

 



 

            “Mas esta linda e pura semidéia

            Que, como o acidente em seu sujeito”

            (Camões)

 

            Veja: a “mulher” garrettiana é uma apenas: ou anjo, ou mulher. A “mulher” camoniana, por sua vez, é mulher e anjo ao mesmo tempo, mulher e deusa – uma semideusa.

            Percebe-se um curioso efeito visual no último verso da poesia “Anjo és”. Em azul temos o verbo SER conjugado na primeira pessoa do singular: SOU, para, em seguida, encontrarmos a segunda pessoa do singular do mesmo verbo: ÉS (em vermelho). Substituindo-se os verbos no verso, o EU está cercado pelo TU. A própria voz poética canta que “Minha razão insolente ao teu capricho se inclina, e minha alma forte, ardente, que nenhum jugo respeita, covardemente sujeita, anda humilde a teu poder”. Os sintagmas nominais estão simetricamente colocados no início e no final da frase: mais uma forma de reafirmar o pensamento dialético: início-fim, anjo-mulher.

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