São Paulo

O que se sabe até agora sobre o incêndio que derrubou prédio no centro de SP

Ainda não há confirmação sobre número de mortos, mas os bombeiros afirmam que pelo menos uma pessoa que estava presa no 12º desapareceu após o desabamento.

GZM

TRAGÉDIA – São Paulo acordou com as imagens de um prédio em chamas no coração da cidade. O prédio de 24 andares no Largo do Paissandu desabou no incêndio na madrugada desta terça-feira (1º), que teria começado por volta de 1h30min. Ainda não há confirmação sobre número de mortos, mas os bombeiros afirmam que pelo menos uma pessoa está desaparecida.

Por volta da 1h40min, o Corpo de Bombeiros começou a divulgar informações no Twitter sobre os primeiros esforços para combater o fogo: “Incêndio em Apartamento, Largo do Paissandu, 100 – República. Em principio não há vítimas. 20 viaturas no atendimento, 45 homens. Aguardamos mais informações do local”.

Pouco depois, ficou claro que o cenário era dramático. Viviam no prédio, em ocupação irregular, 92 famílias (248 pessoas, no total), segundo os bombeiros. O edifício era uma antiga sede da Polícia Federal desativada que há 10 anos teve um andar usado como agência do INSS. Não se sabe quantas pessoas ainda estavam no local enquanto as chamas tomavam conta dos apartamentos.

Uma pessoa chegou a ser vista no último andar pedindo socorro. “Subiu para 24 o número de viaturas no combate ao incêndio, 57 homens. Muito fogo pelo local. Há 1 vítima pedindo socorro no último andar. Aguardamos mais informações do local”, atualizou o Corpo de Bombeiros às 2h da madrugada.

Pouco depois, o prédio desabou (VEJA NO VÍDEO ABAIXO), justamente quando os bombeiros tentavam resgatar a vítima a partir de uma operação lançada do prédio vizinho. Ela estava presa por um cabo de aço que se rompeu quando a estrutura desabou. A pessoa não foi localizada depois.

Busca por vítimas

O número de mortos e feridos ainda não foi informado, já que as buscas nos escombros só tiveram início por volta de 11h30min desta terça, após os bombeiros apagarem os focos de incêndio.

— Temos ao menos uma pessoa sob os escombros confirmada. Era uma pessoa que estava no 12º andar. Estávamos entrando pelo prédio do lado e chegamos a colocar o cabo de aço nela mas o prédio ruiu e levou ela junto. Já achamos o cabo, mas ela não — disse o coronel do Corpo de Bombeiros Max Mena à BBC Brasil.

— Não acreditamos que há muitas pessoas embaixo, mas trabalhamos com a pior hipótese. Não acho provável (que haja gente nos escombros) porque já fizemos o cadastramento e levantamento, e a maioria está aqui fora. Ainda tem muito material queimando lá embaixo. Devem durar de 7 A 10 dias os trabalhos aqui.

As chamas teriam atingido dois prédios vizinhos e o desabamento destruiu parte de uma igreja luterana que fica ao lado do edifício. O templo, chamado Martin Luther, é uma das primeiras paróquias evangélicas luteranas da capital paulista, inaugurada em 1908.

De acordo com os bombeiros, 160 homens trabalharam no combate às chamas e 57 viaturas estão no local, além de um helicóptero. Equipes do Samu, da Defesa Civil, da Companhia de Engenharia de Tráfego e da Polícia Militar também trabalham na área.

Às 4h15min, homens da Defesa Civil começaram a reunir os moradores para um cadastramento prévio das famílias, para identificar a melhor forma de oferecer ajuda e abrigo.

Por volta de 11h30min, os bombeiros começaram a fazer buscas nos escombros.

Coronel Max Mena, do Corpo de Bombeiros, diz que há pelo menos uma pessoa desaparecida. Ele diz não acreditar que haja mais mortos e feridos, porque um levantamento feitopela Defesa Civil apontou que 248 pessoas evacuaram o prédio (Foto: RAFAEL BARIFOUSE / BBC)

Michel Temer hostilizado

Por volta de 10h desta terça, o presidente Michel Temer esteve no local do incêndio, mas foi hostilizado e se retirou rapidamente. Ele chegou a descer do carro, mas foi reconhecido e passou a ser alvo de xingamentos.

Objetos foram jogados contra o carro, enquanto pessoas o chamavam de “golpista” e “vampiro”. Diante das hostilizações, Temer retornou ao veículo rapidamente deixou o local.

Mais cedo o governador de São Paulo, Márcio França, visitou a área afetada pelo fogo e conversou com a imprensa.

Imagem mostra momento em que Temer entra em carro para deixar o local (Foto: Reprodução / Jornal da Gazeta)

Falta de elevadores teria criado “chaminé” e agravado incêndio

De acordo com o porta-voz do Corpo de Bombeiros, Marcos Palumbo, a ausência de elevadores no prédio e a presença de muito lixo no local teriam agravado o incêndio, funcionando como combustível para o fogo.

— Ele tinha elevadores que foram substituídos (retirados). Então, esses dutos de ar que eles tinham no meio, pelo fosso do elevador, eles acabam formando uma chaminé. Você tinha muito material combustível: madeira, papel, papelão, algo que fez com que essa chama se propagasse com rapidez — disse Palumbo.

— E a própria estrutura do prédio, sem os elevadores, formando essa chaminé, fez com que causasse o incêndio de forma generalizada na edificação.

Lixo e rato

Ana Cristina Macedo, de 43 anos, relatou que morou na ocupação até meados de 2017, com o marido. Ela deixou o prédio a pedido da irmã, por causa da situação precária e por morar num andar alto, “com muita escada”.

Ana Cristina se mudou para outro edifício ocupado pelo Movimento de Luta Social por Moradia (MLSM), na Bela Vista.

— As condições eram precárias. Faltava luz todo dia e tinha muito lixo e rato. Os moradores achavam que era seguro. Dizem que os bombeiros estiveram aí e avisaram ao coordenador (da ocupação) que podia cair e ele não contou para ninguém — afirmou à BBC Brasil.

Zelador do prédio que fica em frente ao edifício que desabou, Josimar Lopes, 48 anos, contou à BBC Brasil que acordou 1h30 com os barulhos. Ele diz que, inicialmente, achou que o estavam invadindo o prédio onde mora e trabalha. Foi então que viu chamas no quinto andar. Ele subiu para jogar água, mas desistiu e chamou os bombeiros.

— A gente sabia que isso ia acontecer. Não foi o primeiro incêndio. Já vi uns três recentemente. Tinha muita madeira e colchão lá dentro — afirma Lopes, que trabalha há 13 anos no local.

Francisca Santos Silva, 40 anos, relatou à BBC Brasil que morava havia três anos no edifício que desabou. Ela diz que estava dormindo quando foi alertada sobre o fogo pelo marido.

— Acordei com meu marido me puxando e dizendo que o prédio ia cair. Ele já tinha tirado nossos cinco filhos. A gente morava no terceiro andar. A gente desceu atravessou a rua e já estava tudo em chamas. Em mais uns segundos veio ao chão — disse.

Ela afirma que as condições de vida no prédio eram ruins e que morava lá por falta de opção.

— Eu vejo acontecendo na cabeça mas ainda não acredito. A situação era bem ruim. Água tinha, mas luz faltava sempre. Não tinha lugar melhor para ir. As pessoas criticam mas a gente nao mora aqui porque gosta, mas porque precisa.

“Tragédia podia ser ainda maior”

O governador de São Paulo, Márcio França, criticou as ocupações irregulares em São Paulo e afirmou que a “tragédia poderia ter sido ainda maior” se os bombeiros não tivessem agido rapidamente.

— Esse móvel é da União. É uma estrutura muito leve, não permite ter residência. Nessas condições, é impossível viver. Eles vão jogando lixo no elevador e aquilo vai criando combustão. Em São Paulo, mais de 150 prédios são ocupados indevidamente — afirmou, em entrevista à TV Globo.

Para o governador, o incêndio demonstra os “riscos” das ocupações irregulares.

— O que temos que fazer é convencer as pessoas a não morarem desse jeito. E as pessoas que estão achando que estão ajudando, resistindo e tentando possibilitar que permaneçam nos imóveis estão proporcionando uma tragédia como essa.

O edifíco que desabou era da União. Portanto, segundo França, para retirar as pessoas de lá à força, o governo federal teria que ter uma autorização judicial.

— Neste caso, o prédio era do governo federal. Teria que ter uma ação do governo federal, judicial, para tirar as pessoas. E o governo não faz isso porque não tem onde colocar.

Questionado sobre de que forma o governo estadual e a Prefeitura poderiam ajudar as pessoas do prédio que desabou, ele afirmou que serão oferecidos abrigos e alugueis sociais às famílias.

— Nós estamos dando apoio à Prefeitura, que está levando essas pessoas para abirgos. Vamos dar o apoio necessário para que elas possam se estabilizar. Elas têm direito ao aluguel social, se quiserem. A gente paga enquanto não tem encontra apartamento para elas.

“Vamos ocupar outro local”

Mas o coordenador do movimento Luta por Moradia Digna, Ricardo Luciano, disse que o plano é ocupar outro edifício para acomodar as famílias desabrigadas com o desabamento.

— Vamos atender as famílias, ocupar outro local e remanejá-las para lá. Se o movimento tiver que ocupar outro local abandonado e sem função social, vai ocupar, porque nos albergues as pessoas ficam de lá para cá — afirmou à BBC Brasil.

Ele também rejeita as ofertas da Prefeitura de aluguel social.

— Não queremos auxílio-moradia. Não queremos ficar vivendo do dinheiro público. Quantas unidades habitacionais a Prefeitura tem para nos dar? As pessoas esperam 30, 40 anos por uma unidade da Cohab. Quando consegue, já está indo para um jazigo — criticou.

Ricardo Luciano também afirmou que o incêndio estaria relacionado a uma briga ocorrida num dos primeiros andares do prédio.

— O que sabemos foi que o incêndio começou com uma briga no quinto andar.

Inspeção apontou problemas de segurança

O Corpo de Bombeiros disse ter feito uma vistoria no prédio antes do desabamento durante incêndio. Na oportunidade, em 2015, a inspeção apontou problemas nas condições de segurança contra incêndios.

“Checamos e havia obstrução nas rotas de fuga por lixo e materiais inflamáveis, além de problemas nas instalações de botijões de gás. Além disso, em caso de incêndio, o fogo se propagaria muito rápido porque o poço do elevador funcionava como um motivador, espalhando ar quente rapidamente, tanto que em uma hora o prédio colapsou”, disse o capitão da corporação, Marcos Palumbo.

Inquérito

A Promotoria de Habitação e Urbanismo do Ministério Público de São Paulo decidiu reabrir nesta terça-feira (1º) um inquérito arquivado em março que apurava eventuais riscos de segurança no edifício. A nota publicada pelo órgão confirma que as investigações foram reabertas devido à tragédia.

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